Conexão

Substância tomada: 1/3 de poção feita de 12,5 gr de chacruna, 60 gr de Banisteriopsis caapi e 10 gr de jurema-preta.

Prepara a poção usando 1 pacote de sumo de laranja biológio, equivalente a 6 laranjas nas misturas antigas +2 (Shulgin scale). Esta poção teve um efeito muito forte +3. Adocei o copo com um pouco de mel, para ficar menos amargo, mas agora já estou habituado ao sabor, embora este fosse muito mais forte que antes – daí o mel.

Jejuei durante o dia – tomei a dose às 6 da tarde. Na primeira hora sentei-me lá fora a ver o pôr-do-sol, e senti-me cada vez mais quente e feliz à medida que o tempo foi passando. As primeiras impressões foram bastante físicas, lembro-me de ficar meio desapontado com a falta de efeitos cerebrais. Depois levantei-me e percebi que afinal já começara a viagem, e que provavelmente era altura de voltar para dentro de casa.

Fiquei com frio, e consegui preparar-me a tempo – as visões estavam a começar com força e eram tão lindas, com tons multicolores brilhantes e vibrantes. A luz incomodava-me, fechei as cortinas e achei a escuridão e o calor muito mais agradáveis. As coisas corriam bem, depois mudei de velocidade e a força aumentou inesperadamente umas 10 vezes.

Percebi que estava a usar muita energia para gerar calor corporal, por isso fui para a cama e liguei o aquecedor eléctrico, o que foi maravilhoso, estar quente, podia sentir o meu corpo relaxar e viajar. Senti náuseas e consegui ir à casa de banho, onde tentei vomitar, mas só fiquei agarrado à sanita. Não ia sair nada de dentro de mim. Achei que água ajudava imenso e consegui manter comigo a minha garrafa de água – e o meu gorro, e voltei para a cama com alguma dificuldade – o movimento físico era bastante difícil de controlar, limitei-me a seguir as paredes completamente maravilhado com os visuais.

O movimento também parecia aumentar a força, e a viagem agora fugia de mim, ou o meu sentido de “eu” estava a tornar-se cada vez mais difícil de manter. Aconcheguei-me na cama, tentando relaxar e lembrando-me de respirar para viajar. A força era demasiada, achei extremamente reconfortante agarrar-me ao gorro – é um daqueles gorros de lã tricotados, macio ao toque e substancial ao tacto. Estava a perder o controlo e o medo tornava-se bastante aparente. Curiosamente era medo de medo, estava preocupado com o tempo que isto duraria, estava com medo de morrer, embora fosse mais medo de morrer sem ter vivido o momento.

Consegui relaxar, alguns lembretes de “não sejas palerma” afastaram a sensação de perda de controlo, mas a viagem agora vinha em ondas, um momento de lucidez, seguido de um cume, e os cumes pareciam cada vez mais altos. As passagens davam-me um conforto considerável, pois permitiam-me preparar-me para o cume seguinte. Algumas alucinações com vermes, ou cobras pequenas na parede, mas não me incomodavam realmente tanto como o imenso poder que guiava a viagem, era bastante impressionante.

A certa altura, todavia, fartei-me e aborreci-me, queria que aquilo parasse, mas depois lembrei-me de me deixar ir, e tornou-se mais fácil com cada nova onda. O único sentido de realidade que conseguia manter era que o “eu”, fosse o que fosse, estava a respirar, apenas existia isso, a respiração. Qualquer outra noção de realidade objectiva desaparecera. Imaginei o que aconteceria se o “eu” deixasse de respirar, mas tive medo que o outro lado da respiração não fosse deste mundo. Queria regressar, gosto da normalidade, precisamente por ter experimentado o fora do normal.

Notei um declínio natural, embora não tenha acreditado a princípio, e ri-me, não confiava em nenhum pensamento desse tipo pois podia ter-me levantado, deitado na cama era sem dúvida o único sítio onde conseguia estar. Eventualmente a energia diminuiu a proporções controláveis e percebi que a viagem estava a chegar ao fim. Consegui sentar-me, consegui andar um pouco e finalmente acendi uma luz suave, fiz um chá natural e comi algumas tâmaras, que me fizeram aterrar.

Agora já passaram 48 horas, e ainda não voltei realmente ao que as coisas costumavam ser. Há um sentimento que apenas posso descrever como ansiedade, mas não é, parece mais que me liguei a uma percepção kundalini, “enrolado” ou energia potencial é uma melhor descrição. Consegui dar um concerto 24 horas depois da experiência, com pessoal amigo e simpático, e o meu medo de não me lembrar de como tocar cada dança não se realizou, na verdade até gostei imensamente de tocar e estava totalmente concentrado.

Esta é uma boa descrição de toda a viagem, conexão. Pergunto-me se a dose foi um pouco alta demais, estou desejoso de voltar, mas de certeza que usaria um pouco menos. Percebi que é uma arte navegar estas ondas, e que não se aprende a “surfar” sem cair primeiro. E há outra realidade objectiva que me ocorreu mais tarde, que estava lá e era alguém a viajar, as mesma pessoa que respirava, o “eu”.
Ayahuasca é algo a respeitar, e esta primeira viagem ensinou-me isso. É completamente diferente do ácido, MUITO mais forte que qualquer trip que alguma vez tomei, e muito mais espiritual.